A inspiração que vem de dentro

23 dez 2018

No meu primeiro semestre da faculdade, lá no comecinho de 2016, eu escutava de todos os professores o quanto isso e aquilo agregaria ao nosso repertório. Na escola isso nunca foi a preocupação central, então estranhei no começo ouvir tantas vezes essa palavrinha. Mas realmente, agora indo para meu último ano de faculdade, eu compreendo o quanto o repertório é algo essencial. Para quem escreve, mais ainda.

A pior coisa para quem vive da escrita é o bloqueio criativo. Às vezes ele é só preguiça disfarçada, mas a gente custa a perceber. Quando isso acontece comigo, tento buscar citações que me despertem ideias. Seja na minha pastinha infinita do Pinterest, abrindo aleatoriamente meus livros ou tentando lembrar de alguma frase boa que ouvi por aí. Normalmente funciona. Mas nem sempre.

O fato é que somos feitos de referências da cabeça aos pés. Somos compostos por coisas que nos inspiram e que nos moldam, diariamente. Cada segundinho vivido é parte do nosso repertório. Não apenas os livros e as aulas da faculdade, mas também nos momentos de tédio nos quais percebemos algo novo sobre a nossa casa, nas conversas profundas ou banais que temos com alguém, nas músicas que escutamos e às vezes passamos batido em quantas coisas elas querem realmente dizer com aquelas letras, nas cenas de um filme que parece bobo, em páginas perdidas da internet, nas pessoas que passam pela janela, nos cheiros de perfume ou de comida fresquinha, nos olhares dos cachorros. E por aí vai.

Este ano tive o prazer de fazer o curso de escrita afetuosa da querida Ana Holanda, editora-chefe da Vida Simples, minha revista preferida, e ela disse que as melhores histórias estão nas coisas que mais parecem banais no nosso cotidiano. Quando acordamos, levantamos e vamos escovar os dentes, mais de dez histórias aconteceram à nossa volta. Nossas escovas de dente podem falar mais sobre a gente do que um grande evento. Das coisas mais simples  surgem nossos melhores textos. Levarei essa lição comigo sempre.

Cada vez mais eu percebo que as boas ideias podem parecer estar vindo de fora, mas elas estão vindo de dentro. De dentro dos sonhos que temos, das visões que cultivamos, dos planos, das saudades, dos desejos e de todas as nossas coisas favoritas.  Como dito em um trechinho do maravilhoso livro Roube como um artista, do Austin Kleon -um dos autores que mais admiro no ramo da criatividade:

“Você é, de fato, um mashup do que escolhe entrar na sua vida. Você é a soma das suas influências. O escritor alemão Goethe escreveu: ‘Nós somos talhados e moldados por aquilo que amamos.”

Que a gente saiba aproveitar as referências que o mundo nos dá diariamente. Agora no fim do ano elas parecem vir em dobro. E é sempre bom lembrar que elas não vem só das telas, muito pelo contrário. As melhores ideias vem do mundo real. De pessoas reais. E de tudo que você considera como parte da sua vida.


O poder de uma boa conversa

22 set 2018

Saber dialogar nunca foi tão necessário.

Foto: rawpixel / Unsplash

Quando eu era criança, achava um saco o fato dos adultos passarem horas conversando. Qual a graça em gastar um tempão conversando ao invés de realizar qualquer outra atividade que instigue a nossa imaginação, como assistir um filme ou desenhar? Ouvir opiniões estava bem longe da diversão que qualquer brincadeira me traria.

Mas o tempo passa e as coisas se transformam. Ou talvez seja a gente que mude um pouquinho. Hoje, conversar é uma oportunidade para encontrar pontos em comum e debater outros pontos não tão semelhantes. Se olharmos com profundidade, a imaginação faz parte do diálogo.

A expressão da nossa identidade tem bastante a ver com tudo isso. Entrar em contato com o outro nos faz entender que muitas vezes, alguns sentimentos que tínhamos vergonha de confessar em voz alta não são exclusivos. Mais pessoas têm os mesmos medos que a gente. Mais pessoas compartilham das nossas pequenas felicidades.

O problema é quando as diferenças aparecem. Feliz daquele que sabe brincar com todos os tipos de amigos. Existem crianças que gostam de futebol, outras que gostam de boneca e algumas que gostam de rabiscar. Mas quem disse que as três não podem brincar juntas? E quando foi que desaprendemos esta lógica?

Uma boa conversa tem muito poder. E ela se torna ainda melhor quando seus participantes deixam o ego de lado para construir um diálogo que provoque amadurecimento em ambas as partes. Conversar é expor suas ideias, mas também é saber exatamente como ouvir as do outro. Questionar é permitido, mas sempre com respeito. Quem gosta de desenhar sempre tem algo a ensinar a quem gosta de jogar bola. E vice-versa.

(Texto publicado originalmente na New Order)


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Larissa

Suas escolhas não precisam fazer sentido para os outros

30 ago 2018

Ninguém conhece a sua visão de mundo como você.

Foto: Brendan Church
Foto: Brendan Church

O que não falta neste mundo é opinião dos outros. Sobre a roupa, a carreira, o emprego, o relacionamento, as atitudes… a lista vai longe. As redes sociais fizeram a gente acreditar que precisamos de likes — conhecidos como aprovação alheia na vida real — para ser alguém na vida. Mas a gente precisa tirar esse véu ilusório se quisermos cultivar o que somos.

“O que o homem superior busca está em si mesmo; o que o homem inferior busca está nos outros.” (Confúcio)

Atingimos o sucesso quando nos sentimos realizados com nós mesmos, não quando acreditamos que estamos sendo admirados pelos outros – não que seja algo negativo, mas depender apenas disto para se sentir completo é bastante problemático.

A única pessoa que você deve se preocupar em agradar com as suas escolhas é você. Compensa muito mais fazer as coisas pela sua realização pessoal do que por aprovação externa. Tudo que fazemos na intenção de receber aprovação nos desvia do nosso propósito.

O medo de falhar é inato ao ser humano. Não há nada de vergonhoso em admiti-lo em voz alta. O defeito está em persistir na insegurança, no receio, no pavor de sair correndo para bem longe da sua zona de conforto. Esqueça este medo e faça isto por você.

Você pode ser um profissional extremamente reconhecido, com uma extensa trajetória. Sempre vai existir alguém que desdenhe das suas escolhas. Assim como sempre vai existir alguém que curta o seu trabalho, elogie sua roupa e acredite no seu sonho. E se este alguém não existir, seja esta pessoa. Suas escolhas são só suas e não precisam fazer sentido para ninguém. Só para você.

Olhos diferentes possuem visões diferentes. Cada indivíduo é composto por um aglomerado de experiências subjetivas. Querer agradar ao outro com elas é uma verdadeira perda de tempo. Afinal, no fim do dia, a única pessoa que deve estar satisfeita com as suas conquistas é a que está refletida aí no seu espelho.


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Larissa