Posts da categoria "Cultura"

Seis sentimentos que a arte pode nos trazer

26 jul 2018

 

Kevin Laminto (Unsplash)

Apesar da resposta a uma obra ser — na maioria das vezes — subjetiva, existem sentimentos que todos podem compartilhar ao observar algo novo. Aqui estão seis deles:

 

1. Entendimento do que está ao nosso redor

 

Foto: Antonio Molinari (Unsplash)

 

Muitas vezes nós só conseguimos compreender de forma clara o que está acontecendo na nossa sociedade quando (re)vemos os fatos através de um filme, uma peça, ou uma pintura. Observar a cultura através de um objeto ou produção artística pode ser bastante esclarecedor e eficiente quando queremos assimilar cenários externos que nos parecem confusos e caóticos.

 

2. Aceitação de quem somos e compreensão do que estamos sentindo

 

Foto: Bram (Unsplash)

 

Assim como a arte facilita a nossa compreensão do que se encontra fora, ela também pode ajudar muito no processo de entendimento de tudo que está dentro da gente. Um bom exemplo disso é quando encontramos letras de músicas com pensamentos que poderiam ser nossos, de tão semelhantes ao que sentimos. Ou quando assistimos um filme em que nos encontramos nas características de determinado personagem e de repente tudo parece fazer mais sentido.

3. A percepção de que não estamos sozinhos

 

Foto: Leslie Holder (Unsplash)

 

Na bagunça do nosso dia a dia, pensamentos vêm e vão. É comum acharmos que alguns sentimentos são só nossos, estranhando o jeito como enxergamos as coisas e colocando defeitos no nosso modo de ser. Mas quando nos vemos refletidos em uma obra de arte — à medida que nos identificamos com algum detalhe — percebemos que outra pessoa sentiu o que sentimos, viveu o que estamos vivendo e sonhou o que estamos sonhando. Nossos pensamentos e vivências não são tão únicos quanto parecem ser. Afinal, somos todos humanos. E nunca estamos tão sozinhos como imaginamos estar.

 

4. Medo — do que acontece ou pode acontecer — , seguido de esperança

 

Foto: H E N G S T R E A M (Unsplash)

Não são apenas coisas boas que são retratadas em obras de arte. Tristeza, morte, dor e corações partidos são temas que inspiram milhares de produções. E muitas vezes tememos o que a vida pode nos trazer quando tomamos contato com algo neste viés. Mas a arte, com toda a sua pluralidade, ao mesmo tempo que assusta, conforta. Nos fazendo entender que nem só de beleza é feita a vida.

 

5. Amor — pelas coisas, pelas pessoas e pelo mundo

 

Jean-Philippe Delberghe (Unsplash)

 

Saber olhar com cuidado é também uma forma de amar. Poemas, músicas e filmes que traduzem os nossos sentimentos também podem intensificá-los. Olhar com paixão para a arte é enxergar a beleza da vida e das pessoas que amamos.

6. Curiosidade e vontade de criar

 

Amaury Salas (Unsplash)

 

Uma boa solução para resolver o bloqueio criativo é se inspirar através da arte. Inspiração não é cópia e sempre pode ser exercitada. Seja um texto de dez linhas, um livro de cem páginas ou uma pintura de diversas cores… seguir a curiosidade e observar uma obra ajuda a pôr em prática toda e qualquer ideia.


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Larissa

Como a arte pode fazer você aprender mais sobre si mesmo

Obras de arte apreciadas de corpo e alma podem gerar identidade e trazer um conhecimento que vai além do repertório

Foto: Chris Barbalis

A arte está em debate. Sobre isso não há dúvidas. Muito se questiona sobre o que é ou não arte, o que deve ou não ser exposto… mas pouco se discute sobre o verdadeiro papel de uma obra de arte. Esta tem o poder de tocar a alma de quem a observa, quando analisada de mente aberta, sem preconceitos estabelecidos.

Arte só é arte porque faz pensar. Faz identificar. Gera sentido. Quantas pessoas já não se viram questionando suas próprias vidas depois de analisarem uma simples obra de arte? Quantas pessoas não se veem refletidas em uma pintura, como se estivessem encarando o seu próprio retrato? Essa é a real beleza de uma obra de arte. Contudo, torna-se complicado observar e deixar tais sentimentos fluírem com uma rotina corrida e cheia de afazeres.

Foi pensando nisso que surgiu o Slow Art Day, uma iniciativa que traz consigo uma solução para o dilema entre o cotidiano atarefado e o prazer da arte. Criada em 2009, ela consiste em passar mais tempo que o esperado observando uma obra de arte.

Não existe uma quantidade exata de minutos, pois isso difere para cada pessoa e obra. Porém, para James Pawelski, professor e diretor de educação em um centro de psicologia na Universidade da Pensilvânia, 20 minutos é o ideal. É este tempo que ele pede aos seus alunos para observarem uma pintura de sua escolha. Segundo Pawelski, a nova geração raramente se concentra em algo por muito tempo. Portanto, 20 minutos atualmente equivalem a três horas de tempos antigos. O professor afirma que somente prestando atenção em uma obra por tanto tempo é possível observar o seu real propósito.

Outro projeto bastante interessante para poder apreciar obras com mais calma e conhecimento é o aplicativo gratuito Smartify, que permite escaneios de obras de arte para que o usuário possa ler mais sobre elas, tendo informações sobre sua história e contexto. Além disso, também é possível salvar os favoritos em uma coleção personalizada, que pode ser compartilhada com outros usuários.

Usado em mais de 30 museus e galerias pelo mundo, o app ainda não possui parcerias no Brasil. A equipe responsável é aliada à Fundação Wikimedia, que sustenta a Wikipédia. Sendo assim, as imagens reunidas na enciclopédia virtual contribuem para aperfeiçoar a velocidade e praticidade do serviço oferecido pelo aplicativo. Dessa forma, o reconhecimento de imagens é realizado de maneira mais eficiente.

Ideias como o Slow Art Day e o Smartify são duas formas criativas de aprender mais sobre a arte. Contudo, cada pessoa pode e deve utilizar seus próprios métodos para absorver o que o mundo da arte tem de melhor. O importante é se permitir sentir. Permitir se reconhecer e se re(encontrar).

“Arte e amor são a mesma coisa: o processo de enxergar a si mesmo em coisas que não são você.” (Chuck Klosterman)

 


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Larissa

As feridas e os prazeres do fazer jornalístico

25 abr 2018

O escritor argentino Patrício Pron participou de um debate na FAAP no dia 13 de abril, ao lado de Rodrigo Petronio e Antônio Xerxenesky.

Filho de dois jornalistas, Patrício Pron observava os pais chegarem do trabalho eufóricos em alguns dias, decepcionados em outros. Sem compreender o que viria pela frente, sempre ouviu deles que podia ser qualquer coisa quando crescer “menos jornalista, padre e policial”.

Formado em Comunicação Social alguns anos mais tarde pela Universidade Nacional de Rosário, Pron acabou contrariando o pedido, indo na mesma direção de seus pais e escolhendo o jornalismo como profissão. No início de sua faculdade, se deparou com frases ditas por seu professor que ecoam em sua mente até hoje:

“Não deixe que a verdade te impeça de escrever uma boa história.”

“Não há perguntas incômodas. Incômodas são as respostas.”

No Brasil pela primeira vez para falar de seu livro O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva, de 2011, com tradução recém-publicada pela editora Todavia, Pron diz que ganha a vida escrevendo desde os dezenove anos. Seja para a faculdade ou para os jornais, escrever sempre foi a maneira em que ele se expressou de forma mais profunda.

Hoje crítico literário do jornal espanhol El País, ele esteve na FAAP no dia 13 de abril para debater a relação entre o jornalismo e a literatura — ao lado do filósofo Rodrigo Petronio e do escritor Antônio Xerxenesky — , trazendo à tona vários fatores que envolvem não só a história contada no livro, como também a sua própria.

“Não há período histórico em que o jornalismo seja tão importante como hoje.”

Analisando o momento atual, Pron afirma que o jornalismo vive duas crises simultâneas: de credibilidade e econômica. Mas isso não é empecilho, pois, para ele, “não há período histórico em que o jornalismo seja tão importante como hoje”, pois este “tem o papel de fazer uma correção das ideias falsas que temos da realidade”. Mas, diz, “através da literatura, conseguimos reconhecer as limitações do jornalismo.”

Em relação às redes sociais, o autor critica a ideia que temos de “experiência” nas redes. “Usamos as redes sociais para compartilhar experiências. Mas se são realmente experiências, elas não cabem na brevidade de um post de rede social.” Diferente disso, “a literatura nos faz presente no momento em que estamos”, afirma.

O espírito dos meus pais continua a subir na chuva tem como protagonista um escritor que retorna à Argentina, pois seu pai, jornalista, está morrendo. Nessa jornada, o protagonista acaba não só envolvido pela história de seu pai, como também pela história de seu país — que para o autor, não há possibilidade de estarem separadas. É a memória individual e seus afetos enredada na memória social e coletiva.

Repleto de lembranças familiares e acontecimentos políticos, o livro tem como “pano de fundo” dessa narrativa, a ditadura que ocorreu na Argentina durante os anos 1970. Embora esse “pano de fundo” seja, a seu modo, o protagonista invisível que (des)conecta a vida desses personagens. A história é alternada entre “autoficção”, listas, enumerações e descrições realistas. Pron descreve o gênero da “autoficção” como uma grande mistura de todos os gêneros, tentando extrair os elementos mais importantes, colhendo o “melhor do jornalismo”. Em suas próprias palavras, para essa história que ele narra não seria possível escrever um romance convencional, pois uma história real não possui um final concreto. Embaralha assim, fatos reais e ficção, em uma mistura descrita por ele com grande nitidez:

“Os fatos reais são impossíveis de lembrar de forma objetiva. Por isso, temos que esperar um pouco de ficção.”


Ao fim do debate, uma pessoa da plateia pediu para que Pron desse um conselho para quem, como ela, nutrisse a vontade de escrever um livro. O escritor e jornalista não hesitou em dizer que só se pode escrever escutando a nossa voz interna. Ter consciência disso — e dessa voz — é mais importante do que qualquer domínio técnico.

“Só se pode escrever escutando sua voz pessoal e a colocando no papel.”

(Texto publicado originalmente no LabJor FAAP)


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Larissa