A necessidade de uma mídia criativa

19 jul 2018
Foto: Bernard Hermant

Muito se discute sobre o futuro do ramo jornalístico. Com o avanço do espaço digital e a possibilidade de qualquer pessoa publicar o seu próprio conteúdo, o material impresso torna-se desinteressante para alguns e consequentemente menos prático, passando também a ser menos procurado. Tais fatores acabam por culminar em questionamentos à respeito de como o jornalismo conseguirá se sustentar no ambiente virtual, já que este se modifica a todo momento.

A notícia está em todo lugar. Ela pode ser acessada pelo smartphone, pelo computador, pelo tablet e pela televisão. E com a explosiva participação das redes sociais no cotidiano de qualquer indivíduo, tornou-se cada vez mais rápida a distribuição em tempo real de tudo o que acontece no mundo.

Os grandes veículos de informação ainda se mantém, mas não estão mais exclusivamente no comando. Por mais que demonstrem ser sinônimos de credibilidade em uma realidade repleta de fake news, acabam por encontrar os mais diversos tipos de concorrentes. O jornalismo independente cresce de forma alucinada, com novos portais distribuidores de mídia aparecendo com frequência.

Contudo, uma vez que os portais podem divulgar os mesmos furos com títulos diferentes, a originalidade torna-se rara. Uma possível solução para tal adversidade é também muito simples: basta ir além da notícia.

lead é essencial para o entendimento de todo e qualquer acontecimento, mas é necessário ultrapassá-lo de forma criativa. Explicar de forma clara e descomplicada, buscar curiosidades… situar o leitor para além do óbvio. Veículos com este propósito são os que estão fazendo a diferença.

O grande aliado do jornalismo atual é o design. É ele o responsável por manter a atenção do leitor nas reportagens de fôlego, à medida que conteúdos interativos — com infográficos e games, por exemplo — chamam a atenção e provocam curiosidade a quem está lendo. Além disso, um design responsivo torna-se obrigatório em uma realidade de incontáveis tipos de dispositivos.

Devido a uma rotina cada vez mais corrida e atarefada, nasce um público mais apressado, que busca uma forma prática de manter-se informado. Uma boa aposta para leitores deste perfil pode ser o vídeo de pequena duração já desenvolvido para as redes sociais. Por outro lado, ainda há muito público para textos extensos e bem elaborados, o que mantém os jornalistas esperançosos e dispostos a explorarem cada vez mais esse tipo de conteúdo, que demanda a mesma dose de atenção.

(Texto publicado originalmente na New Order)


Pequeno desabafo sobre a paz que o Facebook nos tira

16 jun 2018

 

Foto: Becca Tapert
Ultimamente tenho ficado irritada de forma estrondosa por causa do Facebook. Entro para conferir o que há de novo e saio percebendo que há sempre mais do mesmo. Sempre os mesmos posts de pessoas tentando convencer as outras que estão certas sobre algum assunto.
 
Acho válido compartilhar seus pensamentos em defesa de seus ideais – afinal, a interação é o principal objetivo de qualquer rede social -, mas o tom arrogante infelizmente utilizado por muitos usuários chega a ser deprimente.
 
Eis que, abrindo o livro As coisas que você só vê quando desacelera, de Haemin Sunim (ótima leitura, por sinal) em uma página aleatória, encontro exatamente o que eu precisava ler – uma dessas coincidências inesperadas que deixa o nosso dia mais feliz:
“Todos nós temos crenças, valores e pensamentos que consideramos fundamentais, dos quais não podemos imaginar abrir mão. Acreditamos que são ideias irrefutáveis, com as quais todos concordariam se fossem sensatos. Mas de vez em quando precisamos estar perto de pessoas que não compartilham das nossas convicções.
Podemos entrar em conflito por causa de visões políticas, crenças religiosas ou valores pessoais. Se a conversa entra no território da discordância, logo se transforma em discussão. Ninguém sente que está sendo ouvido nem respeitado, e o que resta é raiva, confusão e mágoa.
Precisamos nos perguntar se valeu a pena fazer o outro se sentir infeliz ou magoado em nome da defesa de nossas crenças. Em vez de manter a santidade de nossos valores, não deveríamos nos importar mais com a pessoa sentada diante de nós? Não é melhor estarmos felizes juntos do que com razão e sozinhos?
Tentar convencer alguém a adotar nosso ponto de vista é obra de nosso ego. E mesmo que no fim estejamos certos, o ego nunca estará satisfeito, e irá buscar uma nova discussão para se meter.
A maturidade vem com a experiência. Uma lição de maturidade é que devemos aprender a não levar nossos pensamentos tão a sério e a moderar nosso ego para enxergar o panorama mais amplo. Estar certo não é nem de longe tão importante quanto ser feliz com alguém.”
 
Um brinde a todos que utilizam essa rede social para compartilhar ideias boas, momentos felizes e piadas bobas. Nossa paz agradece. 

Comente (0)        4
Tags: , , , ,
Por:
Larissa

As feridas e os prazeres do fazer jornalístico

25 abr 2018

O escritor argentino Patrício Pron participou de um debate na FAAP no dia 13 de abril, ao lado de Rodrigo Petronio e Antônio Xerxenesky.

Filho de dois jornalistas, Patrício Pron observava os pais chegarem do trabalho eufóricos em alguns dias, decepcionados em outros. Sem compreender o que viria pela frente, sempre ouviu deles que podia ser qualquer coisa quando crescer “menos jornalista, padre e policial”.

Formado em Comunicação Social alguns anos mais tarde pela Universidade Nacional de Rosário, Pron acabou contrariando o pedido, indo na mesma direção de seus pais e escolhendo o jornalismo como profissão. No início de sua faculdade, se deparou com frases ditas por seu professor que ecoam em sua mente até hoje:

“Não deixe que a verdade te impeça de escrever uma boa história.”

“Não há perguntas incômodas. Incômodas são as respostas.”

No Brasil pela primeira vez para falar de seu livro O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva, de 2011, com tradução recém-publicada pela editora Todavia, Pron diz que ganha a vida escrevendo desde os dezenove anos. Seja para a faculdade ou para os jornais, escrever sempre foi a maneira em que ele se expressou de forma mais profunda.

Hoje crítico literário do jornal espanhol El País, ele esteve na FAAP no dia 13 de abril para debater a relação entre o jornalismo e a literatura — ao lado do filósofo Rodrigo Petronio e do escritor Antônio Xerxenesky — , trazendo à tona vários fatores que envolvem não só a história contada no livro, como também a sua própria.

“Não há período histórico em que o jornalismo seja tão importante como hoje.”

Analisando o momento atual, Pron afirma que o jornalismo vive duas crises simultâneas: de credibilidade e econômica. Mas isso não é empecilho, pois, para ele, “não há período histórico em que o jornalismo seja tão importante como hoje”, pois este “tem o papel de fazer uma correção das ideias falsas que temos da realidade”. Mas, diz, “através da literatura, conseguimos reconhecer as limitações do jornalismo.”

Em relação às redes sociais, o autor critica a ideia que temos de “experiência” nas redes. “Usamos as redes sociais para compartilhar experiências. Mas se são realmente experiências, elas não cabem na brevidade de um post de rede social.” Diferente disso, “a literatura nos faz presente no momento em que estamos”, afirma.

O espírito dos meus pais continua a subir na chuva tem como protagonista um escritor que retorna à Argentina, pois seu pai, jornalista, está morrendo. Nessa jornada, o protagonista acaba não só envolvido pela história de seu pai, como também pela história de seu país — que para o autor, não há possibilidade de estarem separadas. É a memória individual e seus afetos enredada na memória social e coletiva.

Repleto de lembranças familiares e acontecimentos políticos, o livro tem como “pano de fundo” dessa narrativa, a ditadura que ocorreu na Argentina durante os anos 1970. Embora esse “pano de fundo” seja, a seu modo, o protagonista invisível que (des)conecta a vida desses personagens. A história é alternada entre “autoficção”, listas, enumerações e descrições realistas. Pron descreve o gênero da “autoficção” como uma grande mistura de todos os gêneros, tentando extrair os elementos mais importantes, colhendo o “melhor do jornalismo”. Em suas próprias palavras, para essa história que ele narra não seria possível escrever um romance convencional, pois uma história real não possui um final concreto. Embaralha assim, fatos reais e ficção, em uma mistura descrita por ele com grande nitidez:

“Os fatos reais são impossíveis de lembrar de forma objetiva. Por isso, temos que esperar um pouco de ficção.”


Ao fim do debate, uma pessoa da plateia pediu para que Pron desse um conselho para quem, como ela, nutrisse a vontade de escrever um livro. O escritor e jornalista não hesitou em dizer que só se pode escrever escutando a nossa voz interna. Ter consciência disso — e dessa voz — é mais importante do que qualquer domínio técnico.

“Só se pode escrever escutando sua voz pessoal e a colocando no papel.”

(Texto publicado originalmente no LabJor FAAP)


Comente (0)        0
Tags: , ,
Por:
Larissa